Escrita Nocturna


 



Sonia_Pereira



Nome: Sónia Pereira
Idade: 23
Sobre mim: que poderei dizer das minhas muitas paixões uma delas é a escrita, dizem que um Homem só está realizado quando planta uma árvore, tem um filho e escreve um livro, eu caminho todos os dias na busca da minha realização que para mim vai além de tudo isto, e um dos meus sonhos é sem duvida adoptar uma criança.

 

 
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27.11.05

 

Fechar das janelas

Porque ainda me lembro do teu sorriso, e ainda estás comigo …
Quantas penas foram lançadas…
Quantas lembranças permanecem agora, para sempre guardadas
E eu, e todos nós
Ficamos sós
Pois algo partiu contigo…

Porque já não olhamos juntos uma mesma direcção,
E os meus filhos não poderão correr para ti
Tu que entras-te nos meus sonhos e me avisas-te… e eu não quis saber
Já não vais mais poder contar aquelas histórias que os teus netos ouviam, e bebiam com sede e inspiração para si,
Quantas lágrimas derramadas,
Quantas mais sufocadas.

Foste tu, quem assistiu ao meu primeiro passo, aquele de quem eu aclamava o abraço sempre que vos ia ver,
Eu sei bem da minha missão… e da perplexidade de ser eu a fechar as portas que te mantinham ligado a esta vida
Mas no peito fica uma ferida, e a lembrança imortal do que sempre foste

E assim olho para os montes pela manha,
Os mesmos que percorrias tantas vezes sem parar,
Para os quais guiavas os animais para o pasto, e trazias os molhos
Esses montes que foram reprodutores de sonhos, e para os quais estendias a tua mão fértil para os veres desabrochar,
Agora teu corpo jaz num monte estéril,
Mas a tua alma e a tua lembrança gozam do verde dos teus campos tão cheios de sentimentos e sentido.

E são tantos, esses campos que sei chamados coração.

29.8.05

 

Acordar

O tilintar das campainhas, por causa de um vento que bate na vidraça e entra de mansinho mas ao mesmo tempo de uma forma tão audaz pela casa. O mesmo vento que me convida a sair porta fora, ainda em camisa dou os primeiros passos em direcção à rua, descalça sobre o azulejo frio os meus pés caminham agora sobre a relva verde ainda revestida das partículas de orvalho deixadas pela noite como sinal de vida e começo de um novo dia.

Observo as partículas de água que se juntam em cima de uma folha, e que ao procurarem a liberdade se precipitam, pela acção da gravidade, no solo que as recebe. A terra que no seu seio acolhe estes milhões de fragmentos que muitos consideram nada mas que são a própria vida.

De um branco imaculado a camisa baila ao vento, e eu respiro fundo aquele primeiro ar da manhã, fico ainda a pensar naquelas gotinhas que mais parecem uma rega feita a preceito por gnomos deixando ainda mais verde, este verde jardim, e ninguém cessa a sua vontade de escorrerem até ao ventre da terra. Comparo a sua correria a dois corpos sedentos de amor e que vem na diferença tudo aquilo que os completa, tudo aquilo que lhes falta, e então correm, correm até matarem a solidão e a distância em duas bocas unidas, em sofreguidões de amor.

[Amor alavanca que impulsiona com uma força avassaladora tudo o que dá significado à vida.]

Regresso a casa sonhando contigo, que ainda sei a dormir, mas ao mesmo tempo vejo agarrado às instruções de um berço que em breve irás construir. Deito-me a teu lado, e com um sorriso nos lábios agarras-me e abandonas a tua cabeça pelo meu ventre, esvaziando-a de tudo para que possas simplesmente sentir a vida que brota, a força da alavanca que mesmo em silêncio procuras escutar. Sorrio ao perceber que levantas a camisa para que nada te separe do ventre nu, e de todos os seus sons e tons rosados.

E neste momento o vento, que abana as cortinas e as campainhas, leva consigo todos os pensamentos das batalhas que a vida nos obriga para dar lugar ao respirar aliviado e ternurento sobre a pele sedosa.

25.8.05

 

Fogo

O frio se instala agora nas noites, e a temperatura se torna igual à solidão que se faz sentir no ar. A lua nasce da cor do fogo que queima este meu país, anuncia mortes e manhãs tão frias quanto o desespero de quem vive este martírio.

Seja em pesadelos, sobressaltos, ou pela insónia que se tem, do sono que não se dorme as cabeças vão rodopiando em torno da negra cinza que se apossou de norte a sul e transformou tantos corações dessa mesma cor.

Os sonhos parecem ter terminado, e instala-se a inutilidade nas mentes de cada um que esgotou todos os seus esforços para fazer face a tanta agonia. Os rostos transparecem o perfil sombrio que as marcas inconfundíveis do fogo, que lhes roubou tudo, deixou, uma sombra que delira e deseja acordar e ver que tudo não passou de um mero pesadelo, e que o verde das matas e canto dos pássaros e da vida ainda acontece mas o rubro não cessa tornando cinza a sua passagem.

As imagens invadem casas além fronteiras, fazendo um paralelo entre imagens de um verde intenso agora possuído pelo escarlate ardente e assim se vai transformando a imagem de dia para dia, até ao negro.

Veste-se de luto não só uma pessoa, uma família, uma região… mas todo um país, e não podemos deixar de explodir de raiva pala existência de tantos corpos e olhares mergulhados agora no desespero, porque outros olhos mergulharam na chama ardente.

Eu sinto-me confrontada com inutilidade, pois sei que tudo o que possa fazer será sempre pouco para chegar a todos, mas talvez em nenhum outro artigo tenha sido tão directa como neste momento sobre as questões que me ficam:

Para que submarinos se os fogos são em terra?
Para onde foi o dinheiro desses soldados da paz, que se perdeu entre corredores de politica?
E as empresas detentoras de helicópteros que são recrutadas quanto ganham pela existência de fogos de elevada proporção?
E as Camâras que vantagem tem em ter terrenos nos quais não se possa fazer mais nada a não ser construir?
Porque se alimentam de graça os prisioneiros e não se lhes da uma utilidade limparem as matas?

Se soubessem vocês da quantidade inúmera de interrogações que se entendem na minha mente e da revolta que tenho ao ver a politica deste pais preocupada com a sua imagem ao invés de prevenir. E ainda há quem me pergunte de razões para cá ficar. Eu amo o meu país, mas detesto no que ele se transforma de dia para dia.

23.7.05

 

A Lucidez fumando um cigarro apagado...

O Fumo sim esse que a bailar de uma forma tão invariável me traça movimentos, desejos mais fieis e intocáveis do seu fumador, a sua dança é preenchida por breves momentos soltos em que ele próprio foge tentando libertar-se de si…

Engraçado como esse cigarro me fala tanto de ti… soube-te a pouco desorientado, buscando nele uma sede de amar… mas o fumo saiu de tal forma pesado… que te vi cansado de tentar, esperar e agora vejo-o reflectido no teu olhar.

De quantas memórias és composto, de quantos sonhos e vontades, quem te arrancou do prazer de viver, sem essa lucidez amarga… onde tudo era sonho e brincadeira sem maldade.

O fumo parte agora em busca de correntes quentes, no entanto é o corpo gélido de posicionamento horizontal que procuras entender, ouvir-lhe a voz que já tantas vezes te despertou, mas que de uma estranha forma se tornou ausente. Nem os acordes nostálgicos da viola penetram a parede invisível que se encontra entre o divino e a divindade.

[Ainda que num cinzeiro posto de lado, o fumo continua a sua dança, … e os teus olhos imploram a criança adormecida em ti há tanto posta de lado.]

Vês então, que a tua lucidez nada mais é que o absurdo, pois o que procuras nada mais podes senão imagina-la nos teus estados mais febris, nos quais procuras disfarçar toda essa loucura em actos de normalidade… mesmo sabendo que essas memórias ficaram algures perdidas entre sonhos.

[A voz que te fora dolorosamente agradável e sensual, tornou-se como o frio punhal que te remete para um campo de inquietações e indecisões… no qual E SE… não muda o rumo do caminho que tomas-te.]

A amargura não deixa mais que o sonho comande nem o teu desejo, nem a tua imaginação, e teces ilusões olhando também a dança do fumo de um fogo ainda em rescaldo de entregas subtis e tensões, mas eis que cai em ti a lucidez.


21.6.05

 

Noite e Ruídos

Alguma vez sentis-te a alma tão gelada que sentisses que os arrepios te são causados por outra presença que se encontra bem do teu lado? Uma presença que te beija o corpo milímetro a milímetro, como tu sempre desejaste nos teus pontos mais sensíveis…? Na noite refugio-me no meu quarto aquele que chamo de meu mundo, e uma voz me invade, para sempre estará a meu lado guiando-me em cada passo, ficando do meu lado em todos os momentos que atravessarei de solidão.

Tudo começou anos atrás, o Ocaso nascia agora, aquela fase em que já não há Sol mas a Lua também não é nítida, o choro tornou-se a constante naquela sala de partos, poucos minutos haviam decorrido e já se ouvia o pranto de quem dá a sua primeira lufada de ar. Lá fora a Lua escondida, ela nascia assim no lado negro da Lua, uma Lua Nova que lhe trará mudanças. Vejo-a já crescida quando se abeirava de um muro por detrás de uma árvore da qual nunca soube o nome, ali passava os dias, olhando o vazio, por detrás daquelas grades. Outros lugares passaram a ser lugares de pensamentos e solidão, naquele olhar sempre triste e vazio…, o olhar de desprezo de quem não suporta a altivez, no entanto sonhador e profundo de quem ama… Seria esta mais uma história de novela, em que os dois opostos se atraem, e acabam juntos no final? Vêem-me de momento duas frases feitas à mente “A vida não se aprende nos livros” e “A vida é uma peça de teatro sem direito a ensaios, na qual um só erro pode ser fatal”.

… A noite estava delicada, agradável, ele tinha-a convidado para sair, mas devido a rudeza da vida que levava decidira não ir, nem sequer tentara pedir para não ficar sujeita a todo o interrogatório que daí advinha… chega então de rompante a notícia de um acidente do qual havia surgido um morto, a tristeza de uns misturada com a revolta pela imprudência por parte de outros, todos falavam o pânico instalou-se naquele quarto, sem nada poder fazer, varou a noite a pensar, em não perder a esperança a vida não iria ser tão injusta agora que o havia encontrado…

A cama meio desfeita, ainda quente, tem ainda os vestígios, de quem saíra com pressa, um casaco largado sobre a cama, um coração que pulsa tentando a custo manter-se dentro do peito, enquanto uma angústia toma conta dos poros do corpo… A noticia espalha-se a todo o vapor, mas numa esperança vã de quem não quer acreditar, vejo-a ainda correr desalmada, procurando saber o que realmente acontecera…

-Pessoal, não sei se já sabem mas o Miguel teve um acidente, ontem a noite pelo jeito saiu de mota com uns amigos, e num despique foi apanhado pelo comboio.
- Mas e ele como está, foi para que hospital?
(As expressões de impotência apoderavam-se de cada rosto, passados anos que hoje acho que no fundo eles sabiam da “cumplicidade” entre nós.)
-O Miguel morreu, Daniela!
O corpo daquela rapariga gelou por completo, a sua tez ficou ainda mais branca, como se o seu corpo se tivesses esvaziado de todo o sangue até há ultima gota, o que mais temera durante toda a noite era realmente verdade. Os traços intactos fizeram-na permanecer intacta, sem que qualquer lágrima rolasse naquele momento.
(Atrevia-me a citar Camões perante o remoer, e que a conformidade calma dos anos trouxeram “Alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste.)


De noite para noite ficava apenas assim assistindo à vida que passava, quantas vezes sonhara com ele, deixando-se afundar nos próprios pensamentos, e sonhos que tinha também enquanto acordada. Sentia-se um pedaço de nada, uma vida sem alma, um sonho que deixou de existir… Tudo isto a fazia sentir-se impotente condenando-se a si mesma à destruição. Quantas horas passadas a olhar o céu a tentar encontrar forças para lutar, quando nada mais fazia sentido. Desesperava cada vez mais a cada instante, e caindo na desgraça de ser mais um entre tantos Homens em ruínas, as ruínas que teimara fazer crescer à sua volta … E em prantos nocturnos procurava desesperadamente voltar de novo ao seu sonho … fazer destas ruídas de novo as paredes, e reconstruir o seu Castelo de Sonhos, o seu Castelo de Felicidade!!! Sem forças para lutar, aclama a mão que não vê esticada, questionando-se onde andas tu? Porque partiste? O que vai ser de mim agora que partiste? Quem vai tomar de mim o que prometi ser teu? Porque me deixas continuar a afundar, entre os murmúrios da minha alma há tanto despedaçada? Porque não me levas para bem junto de ti? Lança um pouco em mim dessa tua mágica alegria, e desperta-me de novo para a vida …É este, o primeiro dos meus últimos desejos, ergue-te desse caixão ou puxa para ti esta mulher em ruínas…

(excerto do que irá ser o livro Lárimas Negras)

13.6.05

 

Criança e Velho...

Sentada no seu colo, Ele me dizia assim:
“- Tu és o meu futuro, a promessa do que vai acontecer,
És tu que leva mais adiante um pedaço de mim,
És ainda a inocência, aquilo que devíamos ter…

Tu és a esperança que corre sorrindo,
E mostras aos mundo o poder do sonho,
A ternura do olhar que amor pedindo,
Me faz render ao teu encanto risonho!

Mostra ao mundo como se deve viver,
Sendo feliz a cada momento ao acreditar,
Que um mundo melhor vai haver,
E que por ele hás-de sempre lutar!”

De olhos arregalados olhando no fundo do seu olhar,
Maravilhada por ser para Ele tão importante
Ouvi os seus ensinamentos como musica de embalar,
E Hoje lhe respondo de forma semelhante…

“ Tu és a sabedoria do dia que passa, sem acabar,
Foste a criança que cresceu e tentou o Mundo mudar…
Tu és a forma viva da fé para que pudesse sonhar,
A tua humildade sempre me fez acreditar…

Tuas lições foram de amor e simplicidade
Pois vive ainda a Criança que pula e grita em Ti
Para mim serás uma eterna criança de mais idade
Que mais me faz sonhar quando sorri.

Ambos somos Sonho e Realidade,
Que preenchem as ruas deste mundo, deste país…
Porque somos eternas crianças não importa a idade,
Querendo dar ao mundo um aspecto mais verdadeiro e feliz!”

E hoje eu sei…Serei eternamente criança sempre que os teus olhos me olharem e penetrarem a alma

P.S. Este Poema quero dedicalo ao meu avô, por tudo o que significa para mim, pelo tanto que o quero bem, pelo desejo que tenho que a sua imagem nunca se desvaneca e que torne a ser o Homem que sempre foi... Das imagens mais lindas que guardo de si, é entrar dentro de casa a correr e perguntar pelo Vô Dino, e aparecer aquele gigante que hoje em dia é mais baixinho que eu :). Ao meu avô que tanto amo, um beijo enorme.

21.4.05

 

Catedral da despedida...

Hoje subi a escadaria há muito desejada…
Abri as portas de par em par e entrei.
Hoje vi a nossa catedral sem ti…
Aquela que juntos, nunca visitamos.
E a vista foi-me ficando pesada,
E ali mesmo, no meio do chão me deitei.
Contemplei as imagens que ainda não esqueci…
E perdi-me ali, naquele tecto, nos sonhos que criamos.

A chuva percorre-me o corpo e eu sinto-a como se fossem os teus dedos,
Toca-me a alma, mesmo que na verdade só bata na vidraça
Percorre-me a tristeza de lés a lés, arrepiando todos os meus medos
O Inverno vem chegando o instalando-se na alma
Sente sem temer, o temer do que trago dentro
Ouço ao longe os gritos histéricos e contidos
De quem fecha os olhos, no toque suave com sua mão
As saudades levam ao delírio e a morte dos sentidos
E se dispõe coroas da despedida já no chão

Deixo-me esvaída num olhar qualquer,
Onde me aninho e fico esquecida,
À margem de uma sombra já tão cansada,
Num banco da catedral mortalmente paralisada
E regresso ao mundo próprio e vazio…
Com um olhar quase seco e doentio…
Uma chuva de anjos vestidos no lindo tons azul,
Que me relembra o toque dos teus lábios nos meus,
Um beijo que me faz viajar de norte a sul
E me perco no amor dos olhos seus.

O riso entrelaça-se com os raios do sol no céu
Deixo para trás a catedral para abraçar o que é meu
E assim se morre amanhã, na Catedral da despedida
E ao avistar-te abro-te o sorriso para dar continuidade à Nossa Vida.

15.4.05

 

Descobrir-te!!!

Sabes aquela sensação que se tem, sem ser preciso mais nada, aquela a que chamamos 6º sentido, eu tive-te nessa sensação, e mais posso dizer-te que tu estiveste igualmente em todos os meus outros sentidos.

A Noite, foi aí que tudo começou na Noite, porque eu faço parte dela e Ela de mim, … as duas juntas somos o “animal no cio”, e Tu também lá estavas. Eu podia sentir-te, na outra margem do rio, subindo a tua falésia individual, enquanto eu me reencontrava a cada passo da minha. Passos iguais faziam com que sentisse o frio, de cada passo que davas, a subir em mim, porque o frio que te reveste é ao mesmo tempo parte da tua alma selvagem. As extremidades onde nos encontramos fazem-nos estar em lugares onde nunca tínhamos estado, mas não paramos, nada nos detêm na sensação, assim te tinha em todo o meu tacto.

Refugiado, sim, era assim que tu estavas nesse momento, consigo ver-te a todo o pormenor, o olhar profundo que misericordiosamente lançavas à Lua, pedindo, e que com suavidade deixavas cair de encontro a toda a paisagem que se instalava em teu redor, como quem procura a resposta e a salvação. Sim, eu sei que também me sentis-te arremessas-te veloz o olhar, pois como eu procuravas o rosto do imenso calor que te invadiu.

Tacto e visão se unificaram e bem dentro de ti se encontraram, será verdade o que eles dizem?, que neste momento estagnamos com medo de voar e passar a marca de quem entra noutra dimensão. Tal como eu, sabes que não ser este o nosso mundo, pese embora a nossa busca do entender, precisamos tentar. Vê quem sou eu e quebra os círculos do silêncio que me revestem.

“- Vento, eu te invoco
Para que uma teia de perfume se teça
Que venha Dele ao meu encontro
Que assim se faça e aconteça.”

O vento que invoco traz-me o teu doce perfume, então fecho os olhos e tu ficas forte bem perto de mim, caminho então sobre as águas e saio enfrentando a minha escuridão, a firmeza dos nossos passos permitem-me sentir o tremor que se abate sobre toda esta ponte que criamos, pois também tu enfrentas a tua escuridão. Somos iguais absorvemo-nos.

Ouço o ecoar do cântico, que são as batidas do teu coração, e sincronizadas as nossas respirações são uma só. A fluidez do sangue que nos percorre aumenta, como a pulsação de lobos solitários em caçada, como uma queda de água que vai desvirginar uma natureza agreste. Tu és tudo em cada instante. Atrás de nós fica a derrocada, que nos impele para a unificação.

Antes de me enfrentares beijas aquela a quem te confiaste, e eu lambo-te a lágrima que cai. O poder que conquistas em mim, com o teu paladar, a força com que me aspiras e me libertas de mim, faz-me tremer e arrepiar, enquanto me elevas para o espaço.

Não há forma de escapar, o dia chegou, e não há mais tempo, precisamos enfrentar-nos, o sacrifício do que sentimos dentro, e assim salvaguardamos o amanhã e outros desejos aos nossos contrários, mas que fazem parte de nós, e somos invadidos pois a “loucura” instaurou-se, e sucumbimos parte de nós, até ao momento final.

Porque te tenho nos meus sentidos mas não em mim, fica um até à coragem de descobrir!

31.3.05

 

(continuação)

A manta alentejana que cobria a cama, por cima dos 3, 4 cobertores que tantas vezes a compunham, o rosto de tez branca, enrugado pelo tempo, os cabelos grisalhos mas compridos, os olhos castanhos de um brilho intenso e o sorriso aberto que me abria sempre que passávamos juntas os longos dias, em que adoentada passava deitada na cama, e então eu a olhava, tantas vezes a vi adormecer, enquanto procurava lutar conta a fadiga, lançando-me breves sorrisos que me enchiam de ternura. E então saía de mansinho para que pudesse descansar. E assim era de novo e só a criança que descalça corria atrás das ovelhas, junto com a cadela Lili.

Os minutos demoram a passar, e eu preciso dormir, não vou aguentar mais um dia… Bom pelo sim pelo não o despertador está ligado, e sinto-me adormecer ao som dos ponteiros, porra já! Ainda agora adormeci, só mais 5 minutos por favor, tem mesmo de ser.

Olho o espelho, o meu rosto está um caos de tanto cansaço, não há nada que disfarce estas olheiras, mas um duche sempre ajuda a revigorar as energias, abro a porta ao guarda-fatos, é isso mesmo preciso sentir-me bem comigo mesma, visto as meias e o vestido verde de tons acastanhados. São cores da natureza, são cores de vida, da vida que nasce a cada dia; interessante como esta cor me dá forças para enfrentar o dia. A minha aparência muda consideravelmente, pelo menos já estou mais alegre à vista.


O trânsito está uma desgraça, onde está o respeito pelo próximo? Seria mesmo preciso tanto barulho por causa de um lugar com tantos desocupados.

O seu rosto vêm-me de novo à memória, aquela casa onde fica? Sim eu conheço-te, mas não me lembro de onde, que raio me queres tu dizer que não me deixas dormir, já viste bem o estado em que ando…?

***

A visão de um rapaz de cabelos claros, olhos verdes e estatura normal, o ar de quem é muito traquina, mas a quem o tempo fez crescer rapidamente; uma terra que não conheço mas ao mesmo tempo me soa tão familiar, tudo o que ficou de um tempo que eu sei que estive ali são agora apenas ruínas. Um senhor, cujo ar pesado e duro é traído pelo brilho do olhar onde vejo a imensa ternura… porque me olham assim? Quem sou eu para vocês?

***

24.3.05

 

Obscuridades

A casa antiga feita de pedra, o espaço onde se fazia o fogo no chão para se puder cozinhar e que ao mesmo tempo aquecia toda a casa, hoje seria considerada uma lareira interior, a mesma que ao longo do tempo havia escurecido todo o interior da casa. Poucos casas aqui e acolá foram dando lugar a uma nova aldeia a mesma onde se encontrava essa casa, no meio do que mundo chamariam hoje nada, coberta por floresta, onde os únicos caminhos eram feitos por carroças puxadas por animais. A cada dia que passava o cansaço fazia cada vez mais parte da rotina da vida que por ali vivia.

O tempo não havia sido misericordioso com o rosto cansado, e marcado pelo tempo feroz, pela dureza que a vida impunha, mas ainda assim reinava nos olhos o brilho de quem ao olhar para a vida consegue sentir o sabor da conquista, das vitórias sobre as imensas tempestades. Era agora a vez daqueles a quem tinha alimentado com seus próprios seios, e com o mesmo amor acolhera para si os frutos dos seus frutos, seria deles agora a ardúa tarefa de lhe darem da dignidade que sempre se alegrou de exaltar em cada palavra que proferia, em cada gesto para com o próximo.

Eram poucos os meses que passava na casa que havia construído com as suas próprias mãos, mas ali se fez mulher, ali foi mãe, riu, chorou, a Santa Bárbara orou pelos seus nas enfurecidas noites de tempestade, ali foi tudo, um pedaço de vida, nesta vida de Deus, e por isso foi ali que escolheu voltar ao pó do qual havia emergido. Naquele dia 8 de Setembro, seus olhos se fechavam partindo com o sorriso nos lábios, pois tinha podido escolher o lugar onde abandonar este mundo.

***

-Bom dia, bisa, a mãe foi trabalhar, e a tia tá a fazer o café, posso deitar-me ao pé de ti?
-Entra filha, deita aqui do meu lado, pareces mesmo com a tua mãe quando era pequena, só que ela tinha o cabelo preto e longo e tu pareces um anjo, toda loirinha.
- A mãe também dormia contigo?
- Tantas vezes que até perdi a conta.

- Filha, quando cresceres vais…, é importante que saibas escolher.

***

Procuro lembrar-me das palavras que completavam esta frase, ela tem-me falado mas não consigo lembrar-me o quê nem ao acordar, já há muito tempo que não tinha estes sonhos. Mais uma noite sem dormir, o cansaço apoderou-se do meu corpo, dou voltas e voltas na cama a pensar, faço viagens ao passado em fracções de segundo, e deixo de estar só.

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