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19.3.05
Tu que tanto me disseste sem nada dizer, Que tanto te prometi sem nada prometer, Que tanto amei sem querer… Porque há coisas que duram para lá do tempo, Que se transformam na luz de um dia cinzento, Porque há palavras que nos beijam como se tivessem boca E que me guardam o desejo e que me deixam louca
Hoje guardo-te apenas onde ainda és possível de guardar em mim, Porque tu estarás sempre em mim, Porque correras o tempo dos intocáveis Serás a lembrança mais terna do que envolvi, De tudo quanto já senti
Não foram as diferenças que nos separam, Não foi a crueldade, E do arrepio que me fica e que me lembras sempre tu… Porque vivo com os meus fantasmas Porque lhes dou moradia no meu ser, Porque lhes tenho o apreço E os coloco no mais alto altar de mim, Porque tudo não, porque tudo sim
São memorias eu sei, São pensamentos que se erguem E que se estendem pelo mar revolto em mim, Na sã consciência que não te pode ter, Ver, rever que me trás um sorriso das lembranças E que me magoa nas esperanças… Porque queremos falar e calamos, Porque queremos gritar e silenciamos, Porque queremos mas jamais ficamos Porque nos dói a alma e então choramos …
18.12.04
Todos os dias vejo no teu olhar o árduo cansaço de quem é mãe 24 horas por dia. Faça chuva ou sol, estejas doente ou não, fazes sempre um esforço para te levantar todos os dias, pois metes sempre os teus filhos à frente de ti mesma. No primeiro dia que entrei na escola, a professora perguntou-me o que queria ser quando crescesse, ao que respondi: “Não sei, mas quero trabalhar para que a minha mãe possa descansar, porque ele anda muito cansada”, sinceramente não me lembrava disto, mas é uma das tuas lembranças, uma que quiseste partilhar comigo, pois na reunião a professora contou-te. São tantas as memórias que tenho só de nós duas, do tanto por que passamos, hoje em dia já conseguimos criar memórias todos juntos, pois apesar de pequena lembro bem as lágrimas que choravas por não ter todos os teus filhos contigo. Um dia então perguntaram-me : - Quem é o teu ídolo? - Sem dúvida é e será sempre a minha Mãe. - Qual o teu maior desejo …? - É um dia vir a ser metade do que ela é. De novo me inquiriram: - Porquê? - Porque é a pessoa que mais admiro no mundo; por tudo o que tem passado e mesmo assim reage à vida com a garra dos intocáveis… admiro-a pela sua forma desprendida de amar… pela sua capacidade de perdão… pela sua luta diária 24 horas por dia… amo-a de uma forma incondicional… Para mim ela é a Mãe das mães, a mulher, a guerreira, a fortaleza, o carinho, o aconchego… estou certa que esta é também a opinião dos meus irmãos. Mãe, esta é apenas uma forma de dizer que te AMO MUITO, e que desejo que um dia tenha tudo o que verdadeiramente merece… e decerto não pode ser menor do que o céu, não pode ser menos do que o mar… e ainda assim tudo reunido será sempre pouco para lhe fazer juros. Mas uma coisa já tem e terá para sempre o Amor, Respeito e Admiração dos seus filhos. Beijos com carinho e Parabéns, neste teu dia que seja de grande felicidade.
4.12.04
As palavras que nunca procuras-te ouvir, ou ler nos olhos de quem tantas vezes te as disse, os pedidos de socorro que simplesmente ignoras-te.
Desço o comboio e já ao longe ouço os gritos desesperados de uma alma, depressa avisto aquele olhar, tão cheio de contradições um misto entre alegria e dor… e como se conseguisse ler cada gesto, o carinho, o amor e por fim a repulsa. Céus que flagelo, que desespero este…
A decisão definitiva é tomada, mesmo que vá contra todos os seus ideais… não há nada que possa fazer para esticar mais essa felicidade um minuto, começa-se uma guerra contra o tempo.
Sem meias palavras, chega-se a minha beira e pede-me que a escute, que simplesmente a escute, o terror está implícito no seu olhar. E começa então: “- Não sei por onde começar, mas preciso desesperadamente desabafar, descobri que estou grávida, o que é para mim a minha maior felicidade tornou-se o meu pior pesadelo.
Não posso de modo algum ter esta criança, não só porque o pai não quer, mas sobretudo, porque neste momento sou cobarde e não posso levar de modo algum esta notícia para casa, os problemas já são mais que muitos e este seria a gota de água.
O pai do meu filho e eu já temos tudo combinado, e eu vou abortar.” [Permaneço como petrificada naquele banco sentada, ouvindo…] “ – Sabe sempre quis ter um filho, e agora que o tenho… (as lágrimas caem copiosas pelo seu rosto, vejo-a a apunhalar a própria alma, e a única coisa que lhe consigo oferecer de mim é um abraço), é cruel de mais sabe, consigo aperceber-me da presença de crianças antes de dobrar uma esquina, o que eram antes sorrisos, é agora rejeição quando procuro brincar com uma. Todos os assuntos por onde quer que vá são filhos, bebés, gravidez, parece que o mundo se uniu para me massacrar.
De noite, permaneço acordada a pensar como seria, e o seu sorriso, e o amor que lhe daria, quando tarde consigo adormecer sonho com o seu nascimento, sonho que o estou a amamentar. Oh Deus! Estou a dar em maluca.” Inevitavelmente pergunto como vai fazer o aborto já que o mesmo é proibido no nosso país, a minha preocupação neste momento acaba nem tanto por ser onde mas se o fará em condições, sem agravantes para mais tarde.
A conversa continua horas a fio, as lágrimas correm de parte a parte, confidências são desvendadas, soluções são encontradas, quando a vontade grita pelo contrário. Dou-lhe o meu contacto para que me informe se tudo correu bem, (talvez essa tenha sido a pior desculpa que arranjei, porque não quero sem dúvida perde-la de vista, quero tê-la por perto para poder ouvi-la sem criticar, pois o seu sofrimento já é doloroso de mais).
Falamos tantas vezes na mutilação que se faz, dos actos terroristas, e o que é isto seja dentro do seio das famílias, pais que obrigam, maridos que obrigam, estado que vive hipocrisia e mentira, facilitando os aproveitadores… esta sociedade mete-me nojo, actos de pura violação humana, o sofrimento que ninguém procura escutar… vão ficar sim muitas e muitas palavras por dizer, seja do que ouvi ou do que penso, mas fechar os olhos e virar as costas como outros … NÃO.
28.11.04
Saudade mais que uma palavra um sentimento tão profundo...
“ A saudade que nos encerra na distância De quem amamos, E que nos faz beber na memoria tão doce amor, Uma poção que borbulha e se mistura com o sangue Que nos corre nas veias... Trazendo à distância o sabor a saudade, Ao que amo eternamente, E me faz voar acima da chuva da minha alma Num céu escarlate, com memorias de ti… E a saudade que me atormenta Também me faz sorrir Pois se a saudade existe É porque existe em mim parte de ti Do amor, da tua aflição também, E restituo-me a esperança De em breve te ter aqui…”
23.11.04
A noite continua a cair, na minha cama presa aos pensamentos de uma realidade matinal, fecho os olhos e consigo ainda sentir todo o cheiro do teu corpo no meu.
Olhos nos olhos, o mundo lá fora não existe, os lábios ávidos que procuram saciar a sede em outros lábios, línguas desprovidas de qualquer pudor se encontram entre os encantos e entre os seus encontros fazem amor.
E se emaranham todos os meus sentidos nos teus como passos de dança… Deste mar me abarco e na tua alma faço a rede do meu descanso…
Tento a todo custo não sonhar contigo, para quando acordar não ficar triste… mas ao mesmo tempo alegra-me saber que estiveste presente, que estiveste do meu lado a cada momento, mesmo que eu tenha permanecido em silêncio.
Os meus pensamentos viajam todo o dia, mal acordo põe-se à estrada, deixando-me solitária, num mundo que me é estranho… mas que não posso deixar de contemplar, e ao abandona-lo ainda ouço dizer: “Porque te entregas a eles se eu te quero?”
- “Não, tu não me queres, mas estarei presente de qualquer forma, sempre arranjarei maneira de estar por perto quando assim me quiseres… ” [e neste instante percorre-me todo um arrepio que me paralisa os sentidos quando te olho uma ultima vez].
-“ Como podes dizer saber o que quero, se não me ouves? Porque me condenas a uma misérrima prisão de lágrimas, e porque não quero o tempo nem o céu toma tu conta de mim.”
Quantas vezes não falamos de escolhas e de tempo, e eu sou parte dele, da forca da sua imagem, mas não, não me fales de escolhas pois eu nunca te escolhi, nunca escolhi ninguém… porque não se manda ao coração simplesmente obedecesse… mas o tempo e o vento que sou escolheram por mim e escolheram-te a ti.
Mas as palavras perdem o sentido com a distância, e o mel dos teus lábios enternecem faz me sentir importante, cuja dimensão de importância não tem limites… mas farei como o vento e partirei por agora levando as histórias e as palavras que deixamos cair pelo chão, engraçado como alguém se pode sentir importante olhando para algo, pois o que seria de mim vento sem a vontade que me dás para voar.
16.11.04
...Hoje pintaste-me em tons de azul, enquanto eu te sabia a tremer, incerto do tom a escolher, mas na subtileza do teu tom mais azul a minha cor misturou-se em ti transformando escarlate a cor cintilante penetrante na minha alma e que em toda calma transbordou o peito e a seu jeito exaltou-me o coração... Senti-te tremer, talvez temer porque naqueles tons azuis eu te lia, os tons eram tudo a pureza a nobreza cada palavra que erguias... e abris-te todo o templo a tanto escondido em mim que esse tom carmesim tão mais palpitante se tornou entre um feroz magoado um leve gigante...
Enredada no teu sorriso corado, e com o corpo salpicado dos teus tons azuis, toco-te os sentidos, e revejo toda a confusão em ti procurando-te, como posso eu ser o teu céu se são esses tons azuis que no tempo se tornam cansados e se tornam acinzentados e me fazem perder de ti.
Eis que me desenhas em toda a geometria quando apenas queria que me desenhasses em ti... e porque sabes o que significam as cores para mim pintas-me de azul porque me queres sempre assim... e no pensamento distante sei que os tons azuis que antes te roubei foram os mesmos com que te pintei ao abraçar-me secretamente a ti para que não percas a cor que para ti sempre vesti...
E se outra cor me ousares pintar que seja a cor branca de um outro céu... pois o repousar será para um breve instante no pensamento teu...
14.11.04
De há uns tempos para cá, os passos em direcção a definição do meu destino tem tomado conta dos meus pensamentos…tenho estudado varias hipóteses mas é certo que as ideias tem tomado grandes caminhos, e me tenho inclinado para uma única trilha…
A ideia de sair de Portugal nunca foi posta de parte, e agora menos que nunca vejo que ela tem pernas para andar… Eu própria já me confrontei interiormente, e disse que não há razões para ficar, ou se calhar até há, e por isso mesmo me afasto procurando um não sei quê em outro lugar,,,
Numa entrevista de trabalho reinou uma questão feita pela própria recruta, se não me sentia inibida ou com medo de ir para um pais totalmente diferente sem conhecer ninguém?... Acabo por ver que essa ideia não me assusta em nada, não só porque tenho uma enorme facilidade de comunicação e integração… mas neste caso porque sempre fui uma revoltada da sociedade, e sempre tive o desejo interior de mudar o mundo… talvez uma idiotice, um sonho, uma quimera… mas seja lá como for ate para voar mais alto temos que nos arriscar num primeiro voo…
Hoje depois de mais um dia de trabalho, resolvi como tantas vezes encher a alma então sintonizei o rádio do carro em musica clássica para me sentir esvanecer, e enfrentar o tráfego maluco que se fazia sentir, mas passado um tempo o rádio resolveu silenciar-se… passada a confusão maior foi engraçado ouvi-lo regressar à vida e substancialmente adorei a musica que tocava…
Ao ouvir Rui Veloso foi como tivesse viajado no tempo e de repente dei comigo a ter saudades de Portugal, sabia que tinha de ligar a minha mãe quando chegasse a casa, uma casa sim no meio do nada, mas que no fundo era a minha casa, e estava feliz porque sentia saudades…
Estranho este sentimento que me invade, porque sei que o facto contar isto é um passo para que o que digo não aconteça, mas outras vezes escrevi e vi o real de uma escrita soturna… mas este não é o momento para pensar de imediato no assunto, afinal ainda tenho todo um ano e meio pela frente se tudo correr bem.
Mas ficou-me uma questão: Quantas das pessoas com quem ainda falo nos dias de hoje, irão partilhar comigo mais esse momento de pura voltagem na minha vida electrizante?
9.11.04
Oculto o rio que nasce nos meus olhos, As palavras perdem-se na correnteza deste rio Que me corre nas veias e a alma solta o gemido e grita Pois vai de encontro às pedras que são as memórias, do meu ser… Corro veloz numa descida vertiginosa, Procurando passar rapidamente Por entre pântanos escuros, moribundos e sombrios, Onde encontro as maiores rochas que me fazem dividir, Abrindo em mim as feridas que só o tempo e a correnteza irão fechar…
Neste momento queria ser livre e voar… mas sou um rio Um rio que transborda as margens, E que se vê oprimido pela vontade humana de todo o ser Quando a sua natureza é correr solto e viver…
Então um rio se junta a outro e a um mar em seguida E assim se vai formando o oceano da minha vida… Vão correndo piedosas, num vulto quase sem ver E nascem novas pedras a cada novo entardecer
Assim me deito sobre este manto de mar e pedras lascadas Em que as lágrimas transformadas em rio fazem cantigas E assim remexem trazendo a superfície as mais aguçadas E no oceano se juntam novas memórias às mais antigas
1.11.04 Inicio do Ciclo do (re)nascimento
Encerrei ontem um ciclo, nele lembrei todos os que partiram e hoje renasceu um novo… a minha felicitação aos que partiram, deve ter sido bem recebida… pois mais uma vez me abençoaram com o dom da visão… tantas são as vezes que procuramos ocultar outras procuramos não ver, o que está mesmo em frente dos nossos olhos…
Nem sempre é bom ver… porém é sempre necessário, na mais espectacular das viagens até hoje feita tive a mais sublime prenda, dentro de mim crescia sem ver o vulto de quem ama… graças prestadas o regresso cai em mim… estão acabo a recusar-me a alma, onde me abandonou toda a calma e fui levada à contradição dos sentidos… mais uma vez sabia que estava perante as visões que tinha.
«Toda a tua vida é um segredo guardado no segredo dos teus paços…», não queria antever desta maneira, porque tenho que ver sempre mais à frente, porque tenho de saber… e ainda assim insisto que vale pelo pouco que for, porque ainda assim digo o que me negam… porque lhes digo da sua vontade, que eu tanto sei… consigo vê-la para lá dos seus olhos, e sorrio quando me dizem não, que não será essa a vontade…
Mas ao fim vejo-me perante os factos … « Quem pode esconder de ti a alma???!!!» E como ecoa dentro de mim toda a sonoridade e sentido desta frase… as horas vão passando e continuo a questionar-me, não dos porquês deles, mas sim dos meus… o que me leva ainda a tentar? O que me leva ainda a iludir sobre o que já conheço…?
Acabo por encontrar toda a essência do que sempre fui… e do que irei sempre ser… então vejo uma rapariga sentada por baixo de uma árvore vestida de preto, em cima de um muro branco que contem uma correnteza de arame separando-a da rua… “- A solidão não dói, principalmente se não encontraste outra forma de ser”…
Hoje pergunto-me como estou, e sei que para todos estarei bem sempre bem, e não irão obter outra resposta «Quem poderá arrancar de ti a confissão???!!!», cinjo-me nas palavras e nos actos… enquanto em mim cravo mais uma cruz de abandono… mas nada mais farei para voltar atrás… e fica-me a certeza… Não criar laços não trás desgostos… e então sei que não mais incomodarei.
Nas noites gélidas das horas mortas, terei sempre para mim uma vela que irei acender, uma cama ou caixão onde esticar o corpo frígido… paredes reflectindo a sombra de uma chama quase ausente… e ela serei eu.
31.10.04
Lá ao longe chama atraindo o meu pensamento para si Onde a proximidade é o místico romântico Fiz-me, Criei-me, Amei-me por ti
Enquanto sentia o teu gélido respirar O sangue que me corria manifestou o desejo Desejavas o meu sangue para vida voltar Para me fazer tua rainha, sem saber te vejo Mas terei que permanecer na sombra Se não porei todos em perigo ao meu redor Então fiz com aqueles corpos a fogueira Lamento de minha dor
O meu sangue era o licor do fogo Mas deixaste-me a mais negra lição Que no fundo estamos sozinhos E não há nada como o eterno lado da solidão Eu tinha que saber mais desta identidade No ar sentia o som do teu chamado “ – Vêem!” Beber em mim fez-me ver a verdade A tua ânsia, o teu desejo também
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