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21.6.05
Alguma vez sentis-te a alma tão gelada que sentisses que os arrepios te são causados por outra presença que se encontra bem do teu lado? Uma presença que te beija o corpo milímetro a milímetro, como tu sempre desejaste nos teus pontos mais sensíveis…? Na noite refugio-me no meu quarto aquele que chamo de meu mundo, e uma voz me invade, para sempre estará a meu lado guiando-me em cada passo, ficando do meu lado em todos os momentos que atravessarei de solidão.
Tudo começou anos atrás, o Ocaso nascia agora, aquela fase em que já não há Sol mas a Lua também não é nítida, o choro tornou-se a constante naquela sala de partos, poucos minutos haviam decorrido e já se ouvia o pranto de quem dá a sua primeira lufada de ar. Lá fora a Lua escondida, ela nascia assim no lado negro da Lua, uma Lua Nova que lhe trará mudanças. Vejo-a já crescida quando se abeirava de um muro por detrás de uma árvore da qual nunca soube o nome, ali passava os dias, olhando o vazio, por detrás daquelas grades. Outros lugares passaram a ser lugares de pensamentos e solidão, naquele olhar sempre triste e vazio…, o olhar de desprezo de quem não suporta a altivez, no entanto sonhador e profundo de quem ama… Seria esta mais uma história de novela, em que os dois opostos se atraem, e acabam juntos no final? Vêem-me de momento duas frases feitas à mente “A vida não se aprende nos livros” e “A vida é uma peça de teatro sem direito a ensaios, na qual um só erro pode ser fatal”.
… A noite estava delicada, agradável, ele tinha-a convidado para sair, mas devido a rudeza da vida que levava decidira não ir, nem sequer tentara pedir para não ficar sujeita a todo o interrogatório que daí advinha… chega então de rompante a notícia de um acidente do qual havia surgido um morto, a tristeza de uns misturada com a revolta pela imprudência por parte de outros, todos falavam o pânico instalou-se naquele quarto, sem nada poder fazer, varou a noite a pensar, em não perder a esperança a vida não iria ser tão injusta agora que o havia encontrado…
A cama meio desfeita, ainda quente, tem ainda os vestígios, de quem saíra com pressa, um casaco largado sobre a cama, um coração que pulsa tentando a custo manter-se dentro do peito, enquanto uma angústia toma conta dos poros do corpo… A noticia espalha-se a todo o vapor, mas numa esperança vã de quem não quer acreditar, vejo-a ainda correr desalmada, procurando saber o que realmente acontecera…
-Pessoal, não sei se já sabem mas o Miguel teve um acidente, ontem a noite pelo jeito saiu de mota com uns amigos, e num despique foi apanhado pelo comboio. - Mas e ele como está, foi para que hospital? (As expressões de impotência apoderavam-se de cada rosto, passados anos que hoje acho que no fundo eles sabiam da “cumplicidade” entre nós.) -O Miguel morreu, Daniela! O corpo daquela rapariga gelou por completo, a sua tez ficou ainda mais branca, como se o seu corpo se tivesses esvaziado de todo o sangue até há ultima gota, o que mais temera durante toda a noite era realmente verdade. Os traços intactos fizeram-na permanecer intacta, sem que qualquer lágrima rolasse naquele momento. (Atrevia-me a citar Camões perante o remoer, e que a conformidade calma dos anos trouxeram “Alma minha gentil, que te partiste tão cedo desta vida descontente, repousa lá no Céu eternamente, e viva eu cá na terra sempre triste.)
De noite para noite ficava apenas assim assistindo à vida que passava, quantas vezes sonhara com ele, deixando-se afundar nos próprios pensamentos, e sonhos que tinha também enquanto acordada. Sentia-se um pedaço de nada, uma vida sem alma, um sonho que deixou de existir… Tudo isto a fazia sentir-se impotente condenando-se a si mesma à destruição. Quantas horas passadas a olhar o céu a tentar encontrar forças para lutar, quando nada mais fazia sentido. Desesperava cada vez mais a cada instante, e caindo na desgraça de ser mais um entre tantos Homens em ruínas, as ruínas que teimara fazer crescer à sua volta … E em prantos nocturnos procurava desesperadamente voltar de novo ao seu sonho … fazer destas ruídas de novo as paredes, e reconstruir o seu Castelo de Sonhos, o seu Castelo de Felicidade!!! Sem forças para lutar, aclama a mão que não vê esticada, questionando-se onde andas tu? Porque partiste? O que vai ser de mim agora que partiste? Quem vai tomar de mim o que prometi ser teu? Porque me deixas continuar a afundar, entre os murmúrios da minha alma há tanto despedaçada? Porque não me levas para bem junto de ti? Lança um pouco em mim dessa tua mágica alegria, e desperta-me de novo para a vida …É este, o primeiro dos meus últimos desejos, ergue-te desse caixão ou puxa para ti esta mulher em ruínas…
(excerto do que irá ser o livro Lárimas Negras)
Posted at 09:20 by Sonia_Pereira
 |  |  | Alma de Poeta June 26, 2005 10:33 PM PDT
Muito triste, mas uma amargura contada de uma forma bastante real que nos toca. |  |
  |  |  | Pinheirinho June 25, 2005 09:58 PM PDT
lindo!
que mais posso dizer?
A não ser,
para quando esse livro?
;)
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  |  |  | Tytta June 21, 2005 09:16 PM PDT
Interessante q.b. este teu texto.
A incapacidade que uma pessoa tem para sobreviver, face aos acontecimentos menos felizes, por vezes é muito maior do que a coragem que um dia pensou possuir.
Embora a distancia entre duas pessoas seja um duro caminho a percorrer, nada é mais penoso do que a ausência de um ser no nosso ser.
Não creio que a morte separe alguém, apenas impossibilita um pouco os encontros casuais do dia a dia ( a noite permite sentir tanta coisa para além de nós. Para que o dia?)
Contudo a morte não existe como um fim de algo, existe sim como um inicio de uma nova vida... e digo nova pois quem morre, verdadeiramente nunca morre ou morrerá e que continua vivo nunca viverá como se o estivesse.
Há quem, por ai, sinta saudades de alguém que a vida forçou a se ausentar. Eu apenas sinto esse alguém como sempre o senti...
jinhos, tytta |  |
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