24.3.05
A casa antiga feita de pedra, o espaço onde se fazia o fogo no chão para se puder cozinhar e que ao mesmo tempo aquecia toda a casa, hoje seria considerada uma lareira interior, a mesma que ao longo do tempo havia escurecido todo o interior da casa. Poucos casas aqui e acolá foram dando lugar a uma nova aldeia a mesma onde se encontrava essa casa, no meio do que mundo chamariam hoje nada, coberta por floresta, onde os únicos caminhos eram feitos por carroças puxadas por animais. A cada dia que passava o cansaço fazia cada vez mais parte da rotina da vida que por ali vivia.
O tempo não havia sido misericordioso com o rosto cansado, e marcado pelo tempo feroz, pela dureza que a vida impunha, mas ainda assim reinava nos olhos o brilho de quem ao olhar para a vida consegue sentir o sabor da conquista, das vitórias sobre as imensas tempestades. Era agora a vez daqueles a quem tinha alimentado com seus próprios seios, e com o mesmo amor acolhera para si os frutos dos seus frutos, seria deles agora a ardúa tarefa de lhe darem da dignidade que sempre se alegrou de exaltar em cada palavra que proferia, em cada gesto para com o próximo.
Eram poucos os meses que passava na casa que havia construído com as suas próprias mãos, mas ali se fez mulher, ali foi mãe, riu, chorou, a Santa Bárbara orou pelos seus nas enfurecidas noites de tempestade, ali foi tudo, um pedaço de vida, nesta vida de Deus, e por isso foi ali que escolheu voltar ao pó do qual havia emergido. Naquele dia 8 de Setembro, seus olhos se fechavam partindo com o sorriso nos lábios, pois tinha podido escolher o lugar onde abandonar este mundo.
***
-Bom dia, bisa, a mãe foi trabalhar, e a tia tá a fazer o café, posso deitar-me ao pé de ti?
-Entra filha, deita aqui do meu lado, pareces mesmo com a tua mãe quando era pequena, só que ela tinha o cabelo preto e longo e tu pareces um anjo, toda loirinha.
- A mãe também dormia contigo?
- Tantas vezes que até perdi a conta.
…
- Filha, quando cresceres vais…, é importante que saibas escolher.
***
Procuro lembrar-me das palavras que completavam esta frase, ela tem-me falado mas não consigo lembrar-me o quê nem ao acordar, já há muito tempo que não tinha estes sonhos. Mais uma noite sem dormir, o cansaço apoderou-se do meu corpo, dou voltas e voltas na cama a pensar, faço viagens ao passado em fracções de segundo, e deixo de estar só.